O crime é revelar o crime

Ontem, o jornalista português Sérgio Tavares publicou uma conversa de Eduardo Tagliaferro com Oswaldo Eustáquio por chamada de vídeo dentro de um carro. Foram vários assuntos tratados entre os dois, mas o principal era um possível plano de fuga para evitar sua prisão. Nomes aos bois: Sérgio Tavares foi o jornalista detido pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos por vir cobrir atos bolsonaristas. Tagliaferro era assessor de Alexandre de Moraes no TSE, aquele que recebeu a ordem: “Seja Criativo”. E Oswaldo Eustáquio é o jornalista brasileiro com ordem de prisão expedida por Alexandre de Moraes, que a Espanha se recusou a extraditar para o Brasil porque crime de opinião não existe no país europeu.
Mas não é que hoje, coincidentemente, a Polícia Federal não resolve indiciar Tagliaferro pelo vazamento de informações e diálogos que embasaram uma série de reportagens da Folha de São Paulo em agosto do ano passado?! Pois é, justamente as reportagens que mostraram pedidos informais e a encomenda de relatórios para a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE (Tagliaferro era o assessor) justamente pelo gabinete do ministro Alexandre de Moraes no STF.
“Vamos levantar todas essas revistas golpistas para desmonetizar nas redes, seja criativo, você sabe como fica o ministro quando ele quer alguma coisa, pegue uma fala, opinião mais ácida, o ministro entendeu que está extrapolando…” foram algumas das mensagens enviadas a Tagliaferro pelo juiz instrutor do gabinete de Moraes, Airton Vieira, à época. Pois é, passados nove meses desde que isso veio à tona, a Polícia Federal enviou hoje à PGR um relatório pedindo o indiciamento do assessor. A argumentação espanta: a PF afirma que foi Eduardo Tagliaferro o responsável pelos vazamentos à imprensa, e que sua motivação seria desacreditar o judiciário e atrapalhar as investigações sobre grupos que propagam fake News. Mais cara de Venezuela impossível. É tudo tão ensaiadinho, que no mesmo documento, a PF afirma que não devem ser chamados para depor os jornalistas que fizeram as matérias, porque o sigilo da fonte é resguardado. Olha que ridículo tudo isso: basta os repórteres envolvidos publicarem em seus perfis do X que não foi ele quem entregou as informações, e só com isso o relatório da PF cai por terra. Vamos ver se a PGR e o Gonet vão se tocar desse detalhe…
Triste é saber que existiram policiais federais trabalhando para descobrir quem conversou com jornalistas, quem forneceu os diálogos, quem entregou mais de seis gigabytes de documentos à Folha, mas não há ninguém investigando como essas irregularidades impactaram dezenas de decisões, como remoção de conteúdos, bloqueio de perfis e até mesmo o bloqueio de contas bancárias de desafetos do Ministro. Nesse Brasil em que já vimos de tudo, estamos vendo agora o aparelhamento da Polícia Federal para buscar o culpado por revelar um crime. Mas o crime em si, esse não tem ninguém investigando.